Hoje, pela primeira vez em muitos meses, pude contemplar o céu do sol que se põe e o Cristo que se ilumina com as janelas abertas. Um melro veio celebrar e assegurar-me que a Primavera está quase, quase...
É espectacular a magia e a força desta estação. Os troncos e galhos secos e depressivos, transformam-se e testemunham a força da vida em brotos que entumescem e explodem. Amendoeiras em brancos, tílias em verdes clarinhos. Enfim o mundo vegetal põe na ordem do dia o recomeço.
Como é delicioso quando o dentro de nós sintoniza com o mundo lá fora. Difícil no Outono que endurece em Inverno e parece jamais findar. E apesar deles os dias correm e o momento feliz do ar de fim de tarde geladinho, mas possível com um cachecol de lã, chega.
Junto com a vontade de preparar os armários para a nova estação, invade-me a alegria de sentir nos escaninhos íntimos que os Invernos de dor e mágoa, muito mais longos do que os três meses do calendário, perderam espaço para Primaveras de recontactos com amores da vida inteira, que, em algum momento, nos abandonámos, deixando-nos tristes, tristes.
Celebro a Primavera em mim e transcrevo:
Amiga de adolescência
Ter uma amiga de adolescência
é não crescer de todo
é não esquecer de vez
tudo que aconteceu.
Porque quando se tem uma amiga
já não se tem uma parte de nós
Algo da gente fica com a amiga
e se recusa a envelhecer.
Ter uma amiga de adolescência
é nunca esquecer
que muitas perguntas
ficam sem resposta,
que há um tempo de sonhos
e que nem todos conseguem
depois do sono despertar.
A amiga nos lembra
dos dias de sol e de praia
quando se enfrentava o mar
como um ensaio para
o desafio da vida.
Ela reacende as velas
que um dia a gente acendeu
para iluminar os caminhos
em que se passava.
A amiga de adolescência
é fotografia que mesmo revelada
ainda esconde algo.
E surge de repente prometendo contar
mais um de seus segredos.
Ela também tem medos
mas estende suas mãos
e diz que vai nos ajudar.
Ter uma amiga de adolescência
é não esmaecer de todo
o sorriso que se tinha quando criança:
a amiga sempre recordará
de nós sorrindo.
É entender, quando já se é grande,
o sorriso de um rosto pequeno
e ler suas palavras
como se lia os olhos da amiga.
A amiga não deixa a tristeza
ser apenas tristeza: é também
saudade e a alegria de lembrar
que se teve (tem) uma amiga.
A amiga fica guardada
entre as fotos velhas
e os papeis amarelos.
Fica junto dos sonhos e dos poemas,
fica dentro de nós.
Ter uma amiga de adolescência
é recordar das amigas de infância
e não perdoar as amigas
que surgem mais tarde
por não terem chegado antes.
Para a amiga de adolescência
se escreve páginas inteiras de diário,
se dedica horas e horas de telefone.
E quando ela se perde no meio do caminho
a gente descobre que os nossos destinos
não eram iguais
que éramos aviões que partindo de aeroportos
diferentes, haviam se cruzado no ar.
Mas depois, cada um deve seguir sua rota.
A amiga de adolescência é então
a vontade de girar o volante, dar meia-volta e regressar ao tempo
em que ainda se tinha tempo de ter amigas.
Izabella - 30/06/1980